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Uma Conversa de 90 Anos - Um dia comum

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Mais um belo dia na casa de minha avó. Nada de palmadas, nem de palavras inteligentes retiradas de um livro qualquer, escrito por alguma reencarnação do Dalai Lama ou outro grande mestre oriental (mestres orientais sempre me parecem mais mestres). Apenas mais um dia. Foi só um dia na sua companhia, porém estes momentos são recheados de simplicidade e tranquilidade. Difícil explicar exatamente o que sente quando ela está presente. A manhã já corria a todo vapor quando chegamos à casa “avozal” em um sábado qualquer. E a conversa logo começou na sala. A pauta do noticiário informal estava repleta de notícias interessantes: Zeca Fulano, filho de Dona Maria, ia casar, pois engravidou Dolores, irmã de João da Faca. Chico do Boné abriu um posto de gasolina logo ali, depois da curva, ao lado da casa de Tonho Tatu. Este, por sinal, estava muito irritado com o cheiro do combustível. Acontece que, para economizar, Chico colocou sua filharada para encher o tanque dos carros. Só que os moleques viv...

Eita Bermuda!

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Quando eu era mais novo, sair de casa de bermuda a noite era coisa de vagabundo, daqueles vagabundos bem descarados. Andar de chinelo então, só sendo maloqueiro mesmo. Exageros a parte era mais ou menos assim. Quando tinha que sair a noite para alguma festa, a bermuda amargava um canto VIP na gaveta, a não ser que fosse, assim, algo de menor importância, uma visitinha. E olhe que lá onde eu morava sentia-se frio quando os termômetros registravam 26 graus. É um calor desgraçado. Mesmo assim, nada de bermuda. Eu odiava isso. Pense em um calor insuportável. A perna começava a suar e logo ficava irritado. Porém meus pais logo reclamavam se pensasse utilizar a despojada vestimenta como amenizador do tórrido clima noturno. Aliás, muita gente olhava de cara feia. “Vixe, que coisa de maloqueiro, tá desarrumado viu?” De dia tudo bem. De noite nunca. Engraçado como estas coisas marcam a gente de uma maneira incrível. Antes que alguém fale que isto é coisa do passado ou de cidade pequena, gostari...

Ciúme Aprigiano

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“Ah Aprígio! Deixa de ser ciumento.” Esta frase era como um mantra sendo constantemente repetida para o velho e bom Aprígio. No começo somente sua mulher o recitava. A cena típica acontecia na ocorrência de um decote um pouco mais ousado ou na ausência de alguns insignificantes centímetros na barra da saia. Todavia, seu olhar em muita diferia daquela ríspida e flamejante encarada tão normal aos que sofrem de paranoia afetiva, de ciúme mesmo. Ao invés de suas artérias estarem ardendo nas chamas do ódio, seus globos oculares eram banhados de um tipo de paz. Um olhar calmo, tranquilo e, até mesmo, carinhoso... Sua expressão costumava ficar envolta em uma camada de pura inocência. Mesmo assim, ali no fundo dos olhos, bem no cantinho mesmo, perto da divisa entra a visão e o tato, era possível perceber um tantinho de desaprovação. Seu ciúme pode ser classificado na forma mais estranha de todas: o ciúme infundado. Não havia razões conhecidas ou desconhecidas, explicitas ou ocultas para foment...

Planejando uma Mala

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  Separei as camisas. Uma, duas, três. Hum... melhor pôr mais duas extras só por desencargo de consciência, vai que preciso sair e todas estão sujas? Quem já arrumou a mala para viajar e nunca pensou assim? Arrumar a mala pode ser um desafio de planejamento. Esqueçam aquelas malas gigantescas que os desengonçados turistas de plantão levam para viagens mundo a fora. Não, não... vamos focar em curtas jornadas. Ainda mais, que tal se restringir ao fim-de-semana estendido que tantos costumam passar em sua cidade-natal? Você já mora lá? Tente imaginar, ora bolas. Eu não moro. Arrumar a mala costuma ser uma peleja na tentativa de esboçar todas as situações possíveis de ocorrer.  É necessário levar tudo que possa vir a ser necessário. Coitado destes que moram em suas cidades-natal, nunca foram desafiados pelo presente a antever o futuro. Porque passar o fim de semana ali na praia é fácil, você sabe que vai para a praia. Visitar a terra das lembranças envolve uma ansiedade de fazer tudo, d...

Manias de Não-Tão Velho

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      Eu odeio escrever “conseqüência” sem o trema. Toalha na cama me deixa irritado. Molho a escova de dente antes de passar a pasta mesmo sem saber o porquê. Primeiro o sal na salada, depois o azeite. Depois picoto tudo. Deito na cama à noite olhando para a esquerda e, imediatamente, viro-me completamente para a direita. Não passo por debaixo de escadas, dá azar. Primeiro como os doces do prato, depois os salgados. Isso nunca dá certo em festas. Deixo um último pedaço de carne para comer no final da refeição encharcado de molho. A estratégia é usar este naco como rodo de chão no prato. Coloco o açúcar (se minha nutricionista estiver lendo isto, quero deixar claro que é adoçante) na xicara antes de por o café. E o leite sempre vai por último, a não ser que seja em pó. Neste caso vem antes do açúcar. Não saio de bermuda a noite. Nem de chinelo. Costumo sofer no verão. Sempre tento logar no meu email sem senha quando uso ele em um computador de outra pessoa. Só para ver se...