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Um Estranho em Sua Própria Casa

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Um estranho em sua própria casa ou uma estranha casa em seu próprio eu. Foi nessa dúvida que ele estava após meses viajando. Morava sozinho, mora ainda, vamos pôr verbos no tempo correto. Sentado no sofá, admirando o silêncio da sala com sua nova impessoalidade inexistente antes da partida e do regresso. Algo estava, está diferente. O sofá não parece mais ser tão receptivo. Também aquelas paredes, que já testemunharam tantas coisas, impunham um silêncio estarrecedor ao ambiente. Tudo permanece no mesmo, exatamente no mesmo lugar de meses atrás. A negra camada de poeira denuncia o passar do tempo e sua constante insistência em soterrar o presente para que este não atrapalhe o caminho do tão esperado futuro. Sentia-se um caldeirão de sentimentos apoiado no sofá. A próxima prova do sopão de pensamentos veio com um gosto um tanto estranho: foi capaz de distinguir uma pitada de espanto ali no fundo da colher. Estava abismado. Levantara do sofá para beber um simples copo de água. Esquecera o...

O Pulo do Aprígio

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Aprígio chegou ao hangar tranquilo, como quem foi ali comer um misto quente na padaria. Até sabia o que o esperava, ou imaginava saber. Algumas coisas, simplesmente, sempre estiveram completamente fora do script de sua vida. Por exemplo, nadar com tubarões. Tem gente que adoraria ter essa experiência, porém possui dúvidas quanto à segurança, possuem medo, possuem certos receios e não decidem se irão executar a cena de adrenalina ou deixar para a próxima encarnação. Aprígio não era uma pessoa deste tipo. Ele simplesmente riscou do roteiro algumas cenas. Principalmente estas de ação e aventura que desafiam o limiar do bom-senso ou as habilidades naturais que a evolução concedeu aos seres humanos. Conversara com alguns colegas e, por acaso do destino ou um capricho omisso de suas decisões, contratou um pulo de paraquedas. Assim, pesquisou, sentiu confiança, ligou e marcou. Um belo sábado de manhã estava planejado pelos céus para o dia. No dia anterior saiu, bebeu um pouco, conversou com o...

Correr Descalço

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Havia tropeçado tantas vezes naquela pedra que já imaginava a dor antes mesmo de a sentir. Todo seu calculo e detalhado planejamento fora por água abaixo. O cansaço o alcançou. Adorava correr de pés descalços. Sentir a aspereza do chão de terra. Todos os seus detalhes, pedrinhas, meros detalhes eram sentidos amplamente pela primeira camada de pele de seu corpo. A despeito da dor, adorava correr. Faz parte, o faz sentir vivo. Havia escolhido um belo lugar hoje. Bem distante de tudo, porém plano. Sua trilha alternava de textura e tonalidade como se uma mudança fosse algo fácil. Ora crespo, o solo não mais o feria como da primeira vez. Nada como experiência para engrossar as solas. Mesmo assim incomodava. A natureza,  uma bela e enfurecida mulher, intercalava as espetadas cascacolhasas por um carinho suave, um constante e macio alisar provido pela delicada grama. A velocidade da corrida deixou de ser o principal. Devagar ou rápido, estes adjetivos foram banidos de sua lista de preferência...

Uma Pergunta Boba

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Outro dia desses perguntei aos meus pais qual foi a fase da vida dos filhos que eles mais gostaram. Esta mini-curiosidade foi motivada por um dos famosos momentos abobalhados que passamos ao nos depararmos com um bebê. Mas não um bebê qualquer. Aqueles que estão mais para bolinhas bem arredondas, despertadores crônicos de sorrisos e vozes estranhas nos adultos (gut gut?). Um projeto de gente capaz de semear sorrisos com um leve e desdentado abrir de boca. Fiz a pergunta, porém já imaginava qual seria a resposta: "a fase de bebezinho, claro". Pois bem, fiquei surpreso com o que ouvi: "Todas. Todas as fases foram boas e tiveras suas vantagens, qualidades e alegrias". Sabe quando estamos correndo em uma direção e, subitamente, é necessário virar a esquerda (ou direita, realmente tanto faz)? Acho que algo deste tipo aconteceu nos caminhos nervosos em algum lugar na minha caixola. Ousei uma simples réplica "Hum?!", acompanhada de um leve balançar de cabeça para...

Uma Conversa de 90 Anos - Um dia comum

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Mais um belo dia na casa de minha avó. Nada de palmadas, nem de palavras inteligentes retiradas de um livro qualquer, escrito por alguma reencarnação do Dalai Lama ou outro grande mestre oriental (mestres orientais sempre me parecem mais mestres). Apenas mais um dia. Foi só um dia na sua companhia, porém estes momentos são recheados de simplicidade e tranquilidade. Difícil explicar exatamente o que sente quando ela está presente. A manhã já corria a todo vapor quando chegamos à casa “avozal” em um sábado qualquer. E a conversa logo começou na sala. A pauta do noticiário informal estava repleta de notícias interessantes: Zeca Fulano, filho de Dona Maria, ia casar, pois engravidou Dolores, irmã de João da Faca. Chico do Boné abriu um posto de gasolina logo ali, depois da curva, ao lado da casa de Tonho Tatu. Este, por sinal, estava muito irritado com o cheiro do combustível. Acontece que, para economizar, Chico colocou sua filharada para encher o tanque dos carros. Só que os moleques viv...

Eita Bermuda!

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Quando eu era mais novo, sair de casa de bermuda a noite era coisa de vagabundo, daqueles vagabundos bem descarados. Andar de chinelo então, só sendo maloqueiro mesmo. Exageros a parte era mais ou menos assim. Quando tinha que sair a noite para alguma festa, a bermuda amargava um canto VIP na gaveta, a não ser que fosse, assim, algo de menor importância, uma visitinha. E olhe que lá onde eu morava sentia-se frio quando os termômetros registravam 26 graus. É um calor desgraçado. Mesmo assim, nada de bermuda. Eu odiava isso. Pense em um calor insuportável. A perna começava a suar e logo ficava irritado. Porém meus pais logo reclamavam se pensasse utilizar a despojada vestimenta como amenizador do tórrido clima noturno. Aliás, muita gente olhava de cara feia. “Vixe, que coisa de maloqueiro, tá desarrumado viu?” De dia tudo bem. De noite nunca. Engraçado como estas coisas marcam a gente de uma maneira incrível. Antes que alguém fale que isto é coisa do passado ou de cidade pequena, gostari...

Sempre me Despeço

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Sem querer parecer dramático, mas aprendi a sempre me despedir das pessoas que gosto. Nada de experiências traumatizantes do tipo “e então nunca mais o(a) vi...” acompanhados de suspiros de pesar. Nem sempre o Adeus é carinhoso ou amoroso, mas insisto em torna-lo real. Em materializar o momento em palavras ou gestos que adjetivem bem a situação. Sabe? Realmente nunca havia dado valor a este tipo de atitude. Até um dia que percebi o quão distante dois lugares, duas pessoas ou dois momentos podem ser separados pelo tempo. O tempo, a mais cruel, rigorosa e precisa das distâncias, seja qual for a unidade de medida. Ele pode ser incrivelmente longo e distanciador. Mas demorei a perceber. Foram dois dias diferentes que contribuíram para esta visão. O primeiro me é claro, histórico, memorável e incrivelmente simples, até banal. Tão simples quanto apenas ocasiões memoráveis podem ser. A despeito de tudo, foi um momento sem grandes importâncias práticas para mim. Maio, Agosto ou Janeiro... não ...