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A Eleição: o dia da votação

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(Cuidado! Primeira parte em:  http://aquelecaminho.com/2014/10/25/a-eleicao-campanha-eleitoral/ ) Declararam luto oficial na véspera da eleição. Vespeta, o cachorrinho do 205 e Ornitorrinco, o gato preguiçoso do 708, foram encontrados mortos. Cada lado do sufrágio pôs seus dedos em riste, acusando os opositores de assassinar friamente seus respectivos mascotes. Tenho para mim que o responsável foi o Micael do 101. Pense num menino treloso. Treloso e ruim. Aproveitou a confusão geral e operou suas maldades contra os inocentes bichos. Seus pais eram locatários, portanto não votavam na eleição. Enfim, chegou o dia da eleição. O Zé se autodeclarou presidente supremo do sufrágio comunal. Sob a justificativa de inovação e de tornar o pleito transparente, arrumou duas urnas eletrônicas lá no Tribunal Eleitoral. Chamou também o Jeremias e o Rambo, dois PM's do batalhão do bairro para garantir a segurança comunitária. Até gostei da ideia da urna, aprecio aquele barulhinho (tri-li-li-li). Ma...

A Eleição: campanha eleitoral

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Tudo começou com um desagrado entre Silvério, o síndico, e dona Quitéria do 508 que de quieta não tinha nada. Acontece que Quiqui, carinhosamente apelidada por seu marido, queria a vaga de carro vizinha a sua. Nossa micro-comunidade possuía poucas e insuficiente vagas. Havia algum tempo decidiu-se fazer um rodízio, porém a Dona Quitéria inventou de comprar um carrão gigante, daqueles de carregar boi e sempre arranhava-o ao manobrar. Seu Silvério nunca fora conhecido pela sua paciência com reclamadores e respondeu Quiqui (dizem! eu não estava presente) da maneira mais odiosa e solene possível: apenas virou as costas, voltando-se para dentro de sua humilde residência. Nem tiro sua razão. Seu Silvério devia estar no seu pijamão listrado, pantufa amaciada pelo tempo, sentando em sua poltrona curtindo o último vinil do Lupicínio Rodrigues quando a doida da vizinha berrou (Quiqui nunca foi muito afeiçoada com as campainhas do apartamento). Pronto. Foi o suficiente. No outro dia formou-se uma...

Um Estranho em Sua Própria Casa

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Um estranho em sua própria casa ou uma estranha casa em seu próprio eu. Foi nessa dúvida que ele estava após meses viajando. Morava sozinho, mora ainda, vamos pôr verbos no tempo correto. Sentado no sofá, admirando o silêncio da sala com sua nova impessoalidade inexistente antes da partida e do regresso. Algo estava, está diferente. O sofá não parece mais ser tão receptivo. Também aquelas paredes, que já testemunharam tantas coisas, impunham um silêncio estarrecedor ao ambiente. Tudo permanece no mesmo, exatamente no mesmo lugar de meses atrás. A negra camada de poeira denuncia o passar do tempo e sua constante insistência em soterrar o presente para que este não atrapalhe o caminho do tão esperado futuro. Sentia-se um caldeirão de sentimentos apoiado no sofá. A próxima prova do sopão de pensamentos veio com um gosto um tanto estranho: foi capaz de distinguir uma pitada de espanto ali no fundo da colher. Estava abismado. Levantara do sofá para beber um simples copo de água. Esquecera o...

O Pulo do Aprígio

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Aprígio chegou ao hangar tranquilo, como quem foi ali comer um misto quente na padaria. Até sabia o que o esperava, ou imaginava saber. Algumas coisas, simplesmente, sempre estiveram completamente fora do script de sua vida. Por exemplo, nadar com tubarões. Tem gente que adoraria ter essa experiência, porém possui dúvidas quanto à segurança, possuem medo, possuem certos receios e não decidem se irão executar a cena de adrenalina ou deixar para a próxima encarnação. Aprígio não era uma pessoa deste tipo. Ele simplesmente riscou do roteiro algumas cenas. Principalmente estas de ação e aventura que desafiam o limiar do bom-senso ou as habilidades naturais que a evolução concedeu aos seres humanos. Conversara com alguns colegas e, por acaso do destino ou um capricho omisso de suas decisões, contratou um pulo de paraquedas. Assim, pesquisou, sentiu confiança, ligou e marcou. Um belo sábado de manhã estava planejado pelos céus para o dia. No dia anterior saiu, bebeu um pouco, conversou com o...

Correr Descalço

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Havia tropeçado tantas vezes naquela pedra que já imaginava a dor antes mesmo de a sentir. Todo seu calculo e detalhado planejamento fora por água abaixo. O cansaço o alcançou. Adorava correr de pés descalços. Sentir a aspereza do chão de terra. Todos os seus detalhes, pedrinhas, meros detalhes eram sentidos amplamente pela primeira camada de pele de seu corpo. A despeito da dor, adorava correr. Faz parte, o faz sentir vivo. Havia escolhido um belo lugar hoje. Bem distante de tudo, porém plano. Sua trilha alternava de textura e tonalidade como se uma mudança fosse algo fácil. Ora crespo, o solo não mais o feria como da primeira vez. Nada como experiência para engrossar as solas. Mesmo assim incomodava. A natureza,  uma bela e enfurecida mulher, intercalava as espetadas cascacolhasas por um carinho suave, um constante e macio alisar provido pela delicada grama. A velocidade da corrida deixou de ser o principal. Devagar ou rápido, estes adjetivos foram banidos de sua lista de preferência...

Uma Pergunta Boba

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Outro dia desses perguntei aos meus pais qual foi a fase da vida dos filhos que eles mais gostaram. Esta mini-curiosidade foi motivada por um dos famosos momentos abobalhados que passamos ao nos depararmos com um bebê. Mas não um bebê qualquer. Aqueles que estão mais para bolinhas bem arredondas, despertadores crônicos de sorrisos e vozes estranhas nos adultos (gut gut?). Um projeto de gente capaz de semear sorrisos com um leve e desdentado abrir de boca. Fiz a pergunta, porém já imaginava qual seria a resposta: "a fase de bebezinho, claro". Pois bem, fiquei surpreso com o que ouvi: "Todas. Todas as fases foram boas e tiveras suas vantagens, qualidades e alegrias". Sabe quando estamos correndo em uma direção e, subitamente, é necessário virar a esquerda (ou direita, realmente tanto faz)? Acho que algo deste tipo aconteceu nos caminhos nervosos em algum lugar na minha caixola. Ousei uma simples réplica "Hum?!", acompanhada de um leve balançar de cabeça para...

Uma Conversa de 90 Anos - Um dia comum

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Mais um belo dia na casa de minha avó. Nada de palmadas, nem de palavras inteligentes retiradas de um livro qualquer, escrito por alguma reencarnação do Dalai Lama ou outro grande mestre oriental (mestres orientais sempre me parecem mais mestres). Apenas mais um dia. Foi só um dia na sua companhia, porém estes momentos são recheados de simplicidade e tranquilidade. Difícil explicar exatamente o que sente quando ela está presente. A manhã já corria a todo vapor quando chegamos à casa “avozal” em um sábado qualquer. E a conversa logo começou na sala. A pauta do noticiário informal estava repleta de notícias interessantes: Zeca Fulano, filho de Dona Maria, ia casar, pois engravidou Dolores, irmã de João da Faca. Chico do Boné abriu um posto de gasolina logo ali, depois da curva, ao lado da casa de Tonho Tatu. Este, por sinal, estava muito irritado com o cheiro do combustível. Acontece que, para economizar, Chico colocou sua filharada para encher o tanque dos carros. Só que os moleques viv...