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Trânsito do Humor

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Certa feita ocorreu que ele andava um pouco irritado. Apesar de sempre adorar viver em sociedade, tinha que admitir, às vezes a sociedade é um tanto quanto difícil e amarga para se gostar. Assim, seu humor subia e descia as ladeiras da cidade, às vezes virando em esquinas de problemas e angústias. Dependendo da vizinhança, “impossível” costumava ser a melhor descrição para a tentativa de estacionar, parar um pouco e esperar o turbilhão passar. Costumava enfrentar um trafégo. Mas sentia-se refém do tráfico de tempo. Ou da perda de tempo. Quando mais queria essa riqueza, o tempo, menos possuía. Desta forma, algumas terças foram virando segunda, depois foi a vez das quartas se transmutarem em típicas segundas. A coisa foi evoluindo, até que a própria segunda-feira virou ela mesma. E nada, ou melhor, tudo, o tirava do sério. Era comum passar logo. Porém, parecia que o sistema de escoamento do vil fluido negro que percorria as galerias de seu temperamento não estava mais dando conta do volu...

A gentiliza do dia a dia.

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Gentileza. Esta bendita palavra foi pulverizada pelo uso coditano daquele provérbio urbano “gentiliza gera gentiliza”, um triplo g “ggg”. Desculpem, mas foi banalizado. Gentileza não é ideia, não é filosofia. Ela deve ser o fruto de uma relação de amor entre ação e intenção. É um hábito. Outro pedido de desculpas: desculpem-me, mas se você entrar no mesmo vagão que eu no metrô, tenha certeza, será observado. Tenho essa péssima mania de buscar inspiração no coditiano e seus detalhes. Por favor, não tentem me processar, considerem ser imortalizado em um texto como pagamento suficiente. Entrou um rapaz, de idade suficiente para ser chamado de jovem-adulto. Nem jovem o suficiente para ser adolescente, nem adulto o suficiente para ser autorresponsável. Entrou empurrando e esmurrando. Pelo menos, filosoficamente estava esmurrando. Acontece que ele queria sentar em um dos escassos bancos da composição e decidiu não esperar os antigos passageiros aportarem em sua estação-destino. Esbaforido e ...

A Não-Lembrança

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A lembrança do que não foi, ou do que poderia ter sido e nunca mais será, invade minha memória de uma forma que nenhum passado concreto poderá entender. Outro dia desses estava conversando com uma amiga sobre meu fim de semana. "Ah... Fiquei bem chateado. Queria ter conversado com meu irmão e ele passou dois dias de ressaca." E lá vem mais um passado não acontecido para amargar o doce sabor do que poderia ter vindo a ser. Não vamos pôr a culpa sempre no licor dos risos, no lubrificante social, como é conhecido assim o elixir etílico. Minhas casas são recheadas de quase-memórias. Bem mais novo, inventei alguma brincadeira de ver quem rodava a mochila mais rápido na sala de casa. Não lembro quem venceu a competição, mas eu e meu irmão ganhamos um bom castigo por termos quebrado um par de jarros (por sinal, este já foi um dos milhares de apelidos gêmeos que recebi, par de jarros). Coitados, eles tinham uns 16 anos na época e eram uma lembrança de alguma comemoração dos meus pais...

Os Fios Desencapados

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_Calma, calma! Mas já faz tempo que não bebo... _É, mas você está bebendo desde a semana passada! _Também não é assim... Brrrrrr (arroto). _Ele morrendo e eu ficando vivo, o que me importa? Sobra mais mulher. Não que eu queira isso. _Isso o quê? _Que ele morra. _Porra! Você postou essa foto? To com uma cara de mané! Conversar típicas do bar onde estava. Eventualmente tenho o péssimo hábito de chegar na hora quando marco algo com alguém. A consequência natural disto é ficar esperando. Um pouco de Teoria dos Jogos explica. “Ele vai atrasar mesmo, vou atrasar também”. O problema todo é quando “ele” não atrasa. Pior ainda, quando o “ele” sou eu. Daí, só resta buscar distração na fauna e flora local. Sempre tem algo de interessante para anotar no meu caderninho. Havia um bêbado engraçado por perto. Ainda era muito cedo e o coitado deve ter queimado a largada, estava mais leve e alegre do que todos seus os colegas. Sendo assim, ou era prontamente ignorado ou alvo das brincadeiras iniciais do...

A Eleição: o dia da votação

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(Cuidado! Primeira parte em:  http://aquelecaminho.com/2014/10/25/a-eleicao-campanha-eleitoral/ ) Declararam luto oficial na véspera da eleição. Vespeta, o cachorrinho do 205 e Ornitorrinco, o gato preguiçoso do 708, foram encontrados mortos. Cada lado do sufrágio pôs seus dedos em riste, acusando os opositores de assassinar friamente seus respectivos mascotes. Tenho para mim que o responsável foi o Micael do 101. Pense num menino treloso. Treloso e ruim. Aproveitou a confusão geral e operou suas maldades contra os inocentes bichos. Seus pais eram locatários, portanto não votavam na eleição. Enfim, chegou o dia da eleição. O Zé se autodeclarou presidente supremo do sufrágio comunal. Sob a justificativa de inovação e de tornar o pleito transparente, arrumou duas urnas eletrônicas lá no Tribunal Eleitoral. Chamou também o Jeremias e o Rambo, dois PM's do batalhão do bairro para garantir a segurança comunitária. Até gostei da ideia da urna, aprecio aquele barulhinho (tri-li-li-li). Ma...

A Eleição: campanha eleitoral

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Tudo começou com um desagrado entre Silvério, o síndico, e dona Quitéria do 508 que de quieta não tinha nada. Acontece que Quiqui, carinhosamente apelidada por seu marido, queria a vaga de carro vizinha a sua. Nossa micro-comunidade possuía poucas e insuficiente vagas. Havia algum tempo decidiu-se fazer um rodízio, porém a Dona Quitéria inventou de comprar um carrão gigante, daqueles de carregar boi e sempre arranhava-o ao manobrar. Seu Silvério nunca fora conhecido pela sua paciência com reclamadores e respondeu Quiqui (dizem! eu não estava presente) da maneira mais odiosa e solene possível: apenas virou as costas, voltando-se para dentro de sua humilde residência. Nem tiro sua razão. Seu Silvério devia estar no seu pijamão listrado, pantufa amaciada pelo tempo, sentando em sua poltrona curtindo o último vinil do Lupicínio Rodrigues quando a doida da vizinha berrou (Quiqui nunca foi muito afeiçoada com as campainhas do apartamento). Pronto. Foi o suficiente. No outro dia formou-se uma...

Um Estranho em Sua Própria Casa

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Um estranho em sua própria casa ou uma estranha casa em seu próprio eu. Foi nessa dúvida que ele estava após meses viajando. Morava sozinho, mora ainda, vamos pôr verbos no tempo correto. Sentado no sofá, admirando o silêncio da sala com sua nova impessoalidade inexistente antes da partida e do regresso. Algo estava, está diferente. O sofá não parece mais ser tão receptivo. Também aquelas paredes, que já testemunharam tantas coisas, impunham um silêncio estarrecedor ao ambiente. Tudo permanece no mesmo, exatamente no mesmo lugar de meses atrás. A negra camada de poeira denuncia o passar do tempo e sua constante insistência em soterrar o presente para que este não atrapalhe o caminho do tão esperado futuro. Sentia-se um caldeirão de sentimentos apoiado no sofá. A próxima prova do sopão de pensamentos veio com um gosto um tanto estranho: foi capaz de distinguir uma pitada de espanto ali no fundo da colher. Estava abismado. Levantara do sofá para beber um simples copo de água. Esquecera o...