Postagens

Sobre Poeira e Montanhas

Imagem
E foi com uma simples pergunta que tudo isto começou: “Vó, por que remoemos o passado?” E ai ela falou tudo isso: Meu filho, hoje os cafunés não serão de graça. Escute um pouco. Para mim pelo menos, coisas ruins são como poeira sob a terra. Depois de um tempo, o vento assopra e as leva para longe. Alguns traumas do passado podem ser grandes e pesados. Algumas dificuldades ou algumas tristezas podem precisar de mais do que um simples vento. Mas nunca vi uma pedra neste mundo que não pudesse ser movida pela força de uma enxurrada ou de uma tempestade. Nem que seja uma tempestade cósmica. E olhe que entendo de enxurrada. Lembra quantas vezes reconstruí minha casa? E ao levar tal poeira embora, deixa apenas a lembrança bela de uma primavera. Não que isso de primavera exista onde fomos criados. Lá ou chove ou faz Sol. E quando chove é com Sol e quando faz Sol pode até chover. Mas lá existe o Tempo sim. E o Tempo, ao assoprar o pó, deixa a apenas as montanhas. Deixa o sólido. Deixa o que fic...

É um arranhar na unha

Imagem
Eita que Marinalva já era uma senhora. Dessas bem vividas. Vinha do interior brabo mas sabia ser mansa e cuidadosa. Sua família espalhou-se por ai. A Terra gira e as pessoas caminham. Ela mesmo mudara-se tanto atrás de outras vidas. Desde cedo na vida sentia uma dor estranha. Durante anos visitou médicos atrás de uma cura mas nunca ninguém encontrou o que a atormentava. De linguajar comum, nunca havia lido os livros de sintomas. Só sabia descrever o que sentia. Nem sabia direito o que era. Certo dia, um filho insistiu bastante para ela ir conversar com uma experiente senhora que ele havia conhecido em uma cidade perto. Sua experiência vinha da vida mesmo. Fazia parto, dava remédio, curava dor de cabeça. Se não fosse pela insistência, Marinalva nem teria ido. Mas como pedido de filho, depois de velho, não se nega, foi.   Disse “Boa tarde, me chamo Marinalva” para uma sorridente senhora sentada na sombra de um pé de manga. O tempo, claramente, fez estradas em na face da antiga curand...

Cheio de Saudade

Imagem
Fim de uma tarde tímida de domingo. Um frio gostoso o faz procurar o quente de uma coberta. Tons cinzas pincelam o céu e dão um pouco de descanso para o belo azul de outros dias. Não conheço muito de “caras”, mas está na cara que algo bate em seu coração. Pouco o vejo aqui em casa. Relego-me a um canto da vida. Já o vi mais alegre, altivo. Parece-me que tirou seu carro da auto-estrada rápida da vida e trocou por uma carroça de melancolia pastorando pelas trilhas do pesar. Que exagero, não? Há alguns dias o telefone tocou. Logo depois do “alô” se sucederam três segundos de eternidade. Foi ali que percebi, algo mudou. Para quem estava acostumado a abrir as cancelas de todo o mundo e domar boi furioso apenas com um “bom dia”, só há uma coisa capaz de abater assim. Se chama saudade. Pela sua expressão facial, devia estar doendo mais do que pedrada certeira bem onde a testa faz quina com o couro cabeludo. Pena, mas não posso abraça-lo. Ou mesmo acariciar seus cabelos. Para quem não sabe, do...

Por favor, deixe o outro passar

Imagem
O que é se não a essência da vida em comunidade,  o respeito ao próximo? Seja lá quão próximo ou distante ele seja. Aqui do alto vejo a falta que isto faz. A menos de um susto ou outro que levo, pouco me faz diferença. Vivo fora, praticamente a mercê de todos. Mas não cego, e sim altivo e brilhoso lanço meu olhar sobre o cotidiano ao redor. Ele avança erroneamente, acha que dá, mas não deu certo. Assusta ela e, ao invés de um “bom dia, como estas elegante e bonita”, quem sabe não seria ai o início de um belo romance, xinga e é xingado. O romance dá lugar a um drama sem fim e sem razão. Esta visão com a qual fui privilegiado me permite ver a beleza de um cantinho de praça com seu banco esbranquiçado. Vazio, evitado pelo barulho das pessoas e coisas que por perto passam. A gritaria aguda sobrepõe-se ao veludo de um sussurar apaixonado. Já foi a época de ser um banquinho para apaixonados. Ela ia pedir ele em casamento. Engraçado não? No instante derradeiro, belos joelhos femininos prostra...

Um banco na praça

Imagem
Sentou na praça, em um banco branco de praça. Nada o incomodava tanto naquele exato momento. Mesmo assim, seus olhos deixavam o claro o peso que a alma carregava. Um suspiro desprendeu-se de seus pulmões e, como o novilho desgarrado, fugiu de seu corpo. Alcançou algo mais a frente. Em outro singelo descanso público, logo vizinho ao seu momentâneo templo de repouso, a pequena e fujona massa de ar encontrou ouvidos alheios antigos. Ouvidos que já escutaram tanto... Capazes de perceber o passar o do tempo meramente pelo efêmero tic-tac entoado pelo relógio do destino. Ouvidos em repouso, apenas admirando a contínua transformação de futuro em passado. _Não vale a pena meu jovem – Palavras ecoaram entre os dois bancos da praça. – Não vale a pena. “Oi?”, respondeu perguntando. _Seja o que for, não vale a pena este seu pesar. Eles estão te oprimindo? Todos nos fazem mal. “Como você sabe?”, perguntou respondendo. _É assim nosso mundo: quando você brilha, querem te apagar. Quando é opaco feito ...

Meu Adversário

Imagem
Ansiava por este dia. Uma meta individual e silenciosa. Desde sempre, meus treinos eram isto. Treinos. Treinos para algo mais. Não. Não desejava uma luta profissional. Não desejava lutar. Mas minha meta era treinar com ele. Contra ele. Dia após dia suei. Estudei cada movimento. Como socar. Como fazer a alavanca com o corpo. Como me defender. Como atacar para me defender. Correr cada vez mais. Esquivar. Aguentar cada vez mais. Um assalto. Dois. Três. Quatro. Cada assalto extra é uma maratona. Três minutos eternos. Respirações eternas. Raiva transformada em movimento. Concentração. Um dia seria chamado para o ringue. Um dia lutaria contra o próprio mestre. Contra o professor. Um dia. Dediquei os movimentos dos pés. Sincronizei-os com os ombros. Coordeneis meus braços cansados. Olhos furiosos. Calmos. Dedicados. Focados. Em um treino cheio, apenas enxergava o adversário. Suas luvas. Seus movimentos. Suas fraquezas e seus pontos fortes. “Você!”, disse. Venha aqui! Foram meses de dedicação ...

CEP: Geladeira

Dorotéia era uma pizza que estava morando em minha geladeira. Acabei jogando fora quando desconfiei que ela estava de saco cheio da morada. Creio que foram umas 5 semanas naquele CEP. Marta, uma vizinha da prateleira de cima, já dominava a área há algum tempo. Era um ser complexo, com uma profundidade psicológica multidiversificada. Ou seja, uma cebola e suas várias camadas. Já Tobias, este é um fanfarrão. Gordinho, rechonchudo como ele mesmo. Costumava passar o dia com um sorriso amarelo estranho. Hoje já está meio desgastado, puxado para o marrom. Nunca descobri que variedade de Melão ele é, mas que é um Melão, tenho certeza. Seu Constantatino, o pimentão murcho. Já foi verde, já foi vermelho. Agora vive amarelado, meio adoentado, o bichinho. Maristela, a manteiga que ninguém sabe a idade e mente o peso. Tenho pra mim que ela é uma margarina. Sem sal, ainda por cima. Seu Constantino jura que provou e acusou-a de estar além do prazo de validade. Pierre, um vinho que só reclama da vida...